Abertura

Abertura

Procuro aquele que escreva no papel com palavras suspensas (como se fossem flores de lótus sobre a superfície das águas de onde nascem), com palavras acima de qualquer palavra "comum", mas sem se perder a simplicidade, em um movimento paradoxal e ascendente da escrita, onde o simples e o complexo se manifestem concomitantemente, sendo que novos sentidos e significados sejam traçados, ultrapassando os limites fixos para um momento de constante movimento, quebrando-se os paradigmas, desafiando-se a realidade.
Procuro aquele que descubra nas palavras algo que me faça perder a cabeça no deleite magistral do Belo, em ordenações desafiadoras, sendo necessária a suspensão voluntária ou involuntária da realidade para o entendimento e para o prazer de se desvendar o que se esconde entre suas linhas.
Procuro-o dentro dessa caixa cerrada como que se a qualquer momento a sua ausência fosse me consumir, mas sempre na esperança de encontrá-lo.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Bolhas


Lá se vão elas, tão lindas e leves, suspensas no ar
Coloridas, mais cheias, menos cheias
De nada, apenas ar

Vejo-as se multiplicarem a cada sopro mágico
Depois morrem sem angustia nem dor
É desfeito o fantástico

Voando pelos ares levam suas histórias
Em um espaço cada vez menor, multicolorido
Azuis, vermelhas, memórias

Magníficas foram suas vidas errantes
Que no azul do firmamento
Viajaram como nunca antes

Bráulio Silva

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Rotina

Madrugada, amanhecer, aurora, chão, frio, quente, espelho, reflexo, escadas, café, espelho, água, porta, carro, rua, árvores, prédios, pessoas, nuvens, chuva, sol, almoço, doce, trabalho, preocupações, problemas, soluções, abraços, despedidas, bar, cerveja, petiscos, mulheres, homens, calçada, carro, rua, postes, luzes, assaltos, mendigos, prostitutas, garagem, casa, banheiro, espelho, reflexo, água, TV, cama, sonhos... (que o levam para longe dessa rotina).

Bráulio Silva

O olhar do leitor

(Breve reflexão sobre o olhar do leitor)

Seus olhos parecem estar eternamente se refazendo sobre o mundo. São janelas mutáveis que de tempos em tempos se transformam, sendo que a influência do meio, das culturas, dos costumes, do momento histórico, a convivência com os mundos literários e extra-literários, serão grandes responsáveis pela construção de um horizonte expectativo, que será crucial na identificação do leitor com a obra, e consequentemente no seu entendimento.

Ao abrir um livro, o leitor é convidado a decifrá-lo e, para que se obtenha um bom grau de proficiência na leitura, seu olhar deve estar preparado para correlacionar a obra com sua experiência de mundo. Pode-se até dizer que um livro nunca contará a mesma história para leitores diferentes, e não contará a mesma história para o leitor que o lê por duas vezes, pois sua leitura será feita em momentos distintos, em contextos diferentes. É como se diz na primeira estrofe do poema da postagem anterior, "Ephêmeros":

O olhar de hoje não é o mesmo de ontem
E naõ será o mesmo de amanhã
A cada minuto que se passa
Uma nova pessoa se refaz

Olhares

A partir disso, pode-se concluir que o romance, o poema, o conto, dentre outros gêneros, não são obras ou não fazem parte de uma obra fechada, sendo que a cada momento o leitor empírico recria um novo texto com seus olhares.

Assim, também se pode dizer que não há uma leitura ideal, mas sim uma leitura empírica baseada no horizonte expectativo, em um momento fugaz de interação e identificação entre o leitor e o texto para o momento de recriação.

Bráulio Silva

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Ephêmeros















O olhar de hoje não é o mesmo de ontem
E não será o mesmo de amanhã
A cada minuto que se passa
Uma nova pessoa se refaz
Olhares

A palavra que da garganta ecoa, sensibiliza
A todos que a ouvem e mais ainda àqueles que a sentem
Depois só lhes restam rastros
Olhares, sorrisos, lágrimas...
Vozes

A vida parece escorrer por entre os dedos
A cada dia, a cada hora, a cada segundo
Um pouco de mim se vai
Um pouco de mim fica
Lembranças

É como uma bala que rasga o horizonte
Sem saber onde descansar sua existência
Sem saber onde enterrar sua história
Mas sabendo que o tempo é curto
Passageira


Bráulio Silva

Crocodilo

Ah Crocodilo! Cravou em minha mente seus grandes dentes afiados. Dentes que me silenciaram, tornando minha voz cada vez mais baixa, imperceptível. Se não fosse esse Crocodilo seria quem sou, mas...
Há tantos crocodilos parecidos com esse que me abocanhou espalhados pelo mundo, dos mais variados tamanhos, mas esse é o maior de todos, tão grande que fica até difícil de definir suas formas, suas linhas, como se eu fosse engolido sem nenhuma chance por essa força tão faminta, em seu domínio, sujeitado.

Bráulio Silva

Abertura

Procuro aquele que escreva no papel com palavras suspensas (como se fossem flores de lótus à superfície da água de onde nascem), com palavras acima de qualquer palavra "comum", mas sem se perder a simplicidade, em um movimento paradoxal e ascendente da escrita, onde o simples e o complexo se manifestem concomitantemente, sendo que novos sentidos e significados sejam traçados, ultrapassando os limites fixos para um momento de constante movimento, quebrando-se os paradigmas, desafiando-se a realidade.
Procuro aquele que descubra nas palavras algo que me faça perder a cabeça no deleite magistral do Belo, em ordenações desafiadoras, sendo necessária a suspensão voluntária ou involuntária da realidade para o entendimento e para o prazer de se desvendar o que se esconde entre suas linhas.
Procuro-o dentro dessa caixa cerrada como que se a qualquer momento a sua ausência fosse me consumir, mas sempre na esperança de encontrá-lo.

Bráulio Silva