Abertura

Abertura

Procuro aquele que escreva no papel com palavras suspensas (como se fossem flores de lótus sobre a superfície das águas de onde nascem), com palavras acima de qualquer palavra "comum", mas sem se perder a simplicidade, em um movimento paradoxal e ascendente da escrita, onde o simples e o complexo se manifestem concomitantemente, sendo que novos sentidos e significados sejam traçados, ultrapassando os limites fixos para um momento de constante movimento, quebrando-se os paradigmas, desafiando-se a realidade.
Procuro aquele que descubra nas palavras algo que me faça perder a cabeça no deleite magistral do Belo, em ordenações desafiadoras, sendo necessária a suspensão voluntária ou involuntária da realidade para o entendimento e para o prazer de se desvendar o que se esconde entre suas linhas.
Procuro-o dentro dessa caixa cerrada como que se a qualquer momento a sua ausência fosse me consumir, mas sempre na esperança de encontrá-lo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Na ponta da Caneta


Paixão, amor, angustia, dor, felicidade, rancor, tristeza, ódio, ciúme, compaixão, todos os sentimentos são tomados emprestados por ele, matéria prima para sua criação.

Bráulio Silva

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Explosão

Acordou puto da vida com aquela noite mal dormida em meio aos ratos e baratas de seu barraco. Suspirou sem acreditar na vida. Sempre lutou por um futuro melhor, pois lhe disseram que com esforço e suor chegaria lá, mas depois de tantos anos e depois de tantas cuspidas na cara, chega uma hora que a mente não agüenta e o corpo reage.
- Futuro melhor porra nenhuma. Disse.
Todos os dias ele descia o morro para o trabalho. Não era notado por ninguém no seu trajeto, no seu trampo. Invisível. Com as roupas maltrapilhas que escondiam suas costelas de fome passava sempre despercebido por todos, que não tinham tempo para tais observações, ilhados em seus mundos. Egoístas? Indiferentes?
Mas naquele dia algo incomodava ainda mais seu espírito. Eram como pontas de espinhos que lhe saiam de dentro da alma, como um grito abafado que queria correr-lhe boca afora.
Trabalhou angustiado todo o dia e voltando pra casa, quando esperava o farol da rua abrir para que pudesse atravessar, um magnata parou seu carrão e lançou sobre sua imagem um olhar enojado, como que se não pudesse tolerar a sua presença, a presença de um trabalhador honesto, que não teve a sorte ou uma oportunidade.
E foi justamente essa pessoa, do tipo arrogante e prepotente, que despertou sua cólera, como que se aquele olhar, aquele sorrisinho cínico no cantinho da boca fosse a última gota para que atravessasse pelo vidro do carro um pé-de-cabra (uma de suas ferramentas de trabalho) que segurava em uma de suas mãos, arrancando-lhe a jugular sob os gritos aterrorizados dos outros pedestres. Um momento impensado, uma explosão de ódio, de indignação, de revolta.
Com todo aquele sangue em seu rosto, em suas mãos, espalhado por todos os lados, dava risadas como que um louco desvairado, afastado da realidade, com a cabeça girando e com um filme de toda sua vida desgraçada passando por seus olhos.
Quando voltou a si, olhou bem nos olhos do magnata e pensou consigo mesmo: Porra, ta tudo errado.

Bráulio Silva

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Filius Capitalis

Oh! Grandioso imperador concebido ao longo de nossa história
Atravessastes os mares e o tempo para ficar em nossa memória
Concebendo-nos seus filhos que hoje também imperam
Ganância, orgulho, indiferença, cantemo-los

A felicidade se refugiou na impenetrável escuridão
Onde nem mesmo o pensamento pôde alcançá-la
E muitos se iludiram – Poderíamos comprá-la
Ganância, orgulho, indiferença, cantemo-los

Feriu a essência da humanidade, ilhada sem para onde fugir
E na angustia a esperança adormeceu, aprisionada
Onde nem um milhão de anjos a evitassem extinguir
Ganância, orgulho, indiferença, cantemo-los

Como um demônio que assola todos os povos
Surgiu construindo seu limbo
Cheio de cães selvagens e famintos
Ganância, orgulho, indiferença, cantemo-los

Agora podes ir, já é hora de partir
Seu império já se faz por existir
Corpos, fantasmas, vaguidão
Ganância, orgulho, indiferença, cantemo-los

Bráulio Silva