Abertura

Abertura

Procuro aquele que escreva no papel com palavras suspensas (como se fossem flores de lótus sobre a superfície das águas de onde nascem), com palavras acima de qualquer palavra "comum", mas sem se perder a simplicidade, em um movimento paradoxal e ascendente da escrita, onde o simples e o complexo se manifestem concomitantemente, sendo que novos sentidos e significados sejam traçados, ultrapassando os limites fixos para um momento de constante movimento, quebrando-se os paradigmas, desafiando-se a realidade.
Procuro aquele que descubra nas palavras algo que me faça perder a cabeça no deleite magistral do Belo, em ordenações desafiadoras, sendo necessária a suspensão voluntária ou involuntária da realidade para o entendimento e para o prazer de se desvendar o que se esconde entre suas linhas.
Procuro-o dentro dessa caixa cerrada como que se a qualquer momento a sua ausência fosse me consumir, mas sempre na esperança de encontrá-lo.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Vibrações


Às vezes me sinto fisgado, ferido
ao vê-las tristes, velhas, reclamonas
Sinto um chiar, um ranger na solidão
Súplicas pelo toque de uma mão

Então vibro dentro de vibrações
Onde o tempo sem tempo sorri melodias
e mesmo ao me deitar não deixo de ouvi-las
como ecos luminosos rasgando a escuridão

E ali, na madrugada ouço sussurros
Gotas de felicidade, alegria e gratidão
pelas belas notas
pelo singelo trimilique de cócegas
em um corpo tão lindo, fino e nu
a transformar trevas em luz

Bráulio Silva

terça-feira, 15 de novembro de 2011

A vela

Eram três as minhas formas
Pintadas na grande tela
Dançando comigo mesmo
No ritmo das chamas das velas

Eram duas as minhas formas
Pintadas na grande tela
Dançando comigo mesmo
No ritmo das chamas das velas

É apenas uma a minha forma
Pintada na grande tela
Dançando sozinho
No ritmo da chama da vela

Três, dois, um...
Antes muitos, agora um
Dançando sozinho e iluminado
No ritmo da minha chama da minha vela

Bráulio Silva

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Sx

Sou um poema
onde só cabem almas sintonizadas
na irracionalidade, na animalidade,
no instinto.

Um poema que canta
a junção espiritual,
a perda do controle,
a beleza feroz e voraz
de cada um

Um poema que caminha
contra o tabu
de não se falar
... sentir
... ouvir

Quero cantar
o que nos difere do que é divino
Quero cantá-lo
apenas por existir

E depois de cantá-lo ...
entre sons, murmúrios e gemidos
só nos restará tempo
para uma coisa

...
..., ...
..., ..., ...
..., ..., ..., ...

Bráulio Silva

terça-feira, 28 de junho de 2011

Vozes


- Bom dia!
- Bom dia! Mas é bom mesmo?
- Por enquanto não, mas vai melhorar. É porque estou com uma terrível dor de cabeça. Parece que fui castigado em meus sonhos. Parece que sai da cama sem me levantar verdadeiramente. É como se uma parte de mim continuasse dormindo e a outra viesse trabalhar.
- Sei como é. Já tive dias assim.
- Que dor...
- Calma, amigo. Calma. É apenas um sintoma que a maioria das pessoas não sente e quando sente não percebem qual é a causa, mas logo você vai descobrir o motivo de seu sofrimento.
- Tomara. E assim que descobrir cuidarei dessa “enfermidade”.
- Acredito que não seja possível a administração de um medicamento para o que sente. O agressor da sua integridade é externo e invisível, até para a mais poderosa lente. Diga-me. O que sentiu hoje quando acordou pela manhã?
- Senti um grande peso e havia uma imagem em meu pensamento. Era a imagem de várias pessoas batendo em mim, em minha cabeça, com grandes bastões feitos de palavras e letras que se desfaziam e vinham direto em minha direção.
- Continue.
- Logo depois estava mergulhado em um mar de palavras, de letras, de vozes. Afogava-me cada vez mais, deixando bem nas profundezas deste mar o verdadeiro Eu.
- Amigo. Isso é apenas um reflexo e uma pista para suas respostas. O que quero dizer é que nem eu, nem você, nem ninguém é quem realmente deveria ser.
- Amigo. Pode-se dizer que eu sou você. Que você sou eu. Que fazemos parte dos outros e os outros de nós. Somos apenas a reprodução das várias vozes. Vozes...

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Picaretada

Ao som estremecedor, penso
Por vezes me vi em pedaços
Como pedras neste pequeno espaço
Duro, seco, sem vida, penso
Que por vezes me vi em pedaços
De sorrisos que se foram
De olhares que me habitaram
De vozes mudas, imundas
Que ao sol e à chuva vi passar
Incomodados, atentos ao som da batida

Picareta desafiadora de toda dispersão
Centro de atenção
Frente a esse grande mundo quebrado
De emoção, sentimento e sensação

E entre todas essas pessoas defuntas
Que caminham juntas
Continuo com meu braço de picareta
Picaretada
Cavando rumo ao abismo do esquecimento
A imaginar
Quem sabe um dia irão se lembrar
Do som da picareta
A incomodar

sexta-feira, 11 de março de 2011

A morte do amor

Borboletas cristalizadas
Sem medo, sem rancor
Flores paralisadas
Pela angustia do amor

Lagos transpiram chamas
Céus suspiram rosas
Um mundo onírico se forma
Em um leito colorido, por hora!

A alegria, a paixão, o desejo
A tristeza, a fúria, o desprezo
Todos vieram, até o ódio apareceu
Para se despedirem, adeus!

E a pintura se desfez
Em rios turvos, acinzentados
E um grande vazio se formou
Na grande tela da vida, agora.

Bráulio Silva

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Silêncio


Nessas horas noturnas em que o silêncio devora tudo, ele sente o sussurrar dos mais belos versos, mesmo que alguns sejam intransponíveis às folhas de seu caderno. E a todo momento vem muitas formas indefinidas que o atormentam ou que lhe trazem paz nessa grandiosa alegria que é o trabalho com a escrita.
Silêncio sufocante que o desafia a em silêncio dizer algo que faça sentido silenciosamente.
Silêncio que não quer silenciar. Silêncio que acalma, que enfurece, que dá paz, que guia a caneta nas mais perfeitas curvas dentro de um plano nunca percorrido.
Mas aquela noite deveria receber um nome, “Noite do silencio”, pois o silêncio permaneceu calado, deixando-o sem suas formas, esterilizado.


Bráulio Silva