Abertura

Abertura

Procuro aquele que escreva no papel com palavras suspensas (como se fossem flores de lótus sobre a superfície das águas de onde nascem), com palavras acima de qualquer palavra "comum", mas sem se perder a simplicidade, em um movimento paradoxal e ascendente da escrita, onde o simples e o complexo se manifestem concomitantemente, sendo que novos sentidos e significados sejam traçados, ultrapassando os limites fixos para um momento de constante movimento, quebrando-se os paradigmas, desafiando-se a realidade.
Procuro aquele que descubra nas palavras algo que me faça perder a cabeça no deleite magistral do Belo, em ordenações desafiadoras, sendo necessária a suspensão voluntária ou involuntária da realidade para o entendimento e para o prazer de se desvendar o que se esconde entre suas linhas.
Procuro-o dentro dessa caixa cerrada como que se a qualquer momento a sua ausência fosse me consumir, mas sempre na esperança de encontrá-lo.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Vozes


- Bom dia!
- Bom dia! Mas é bom mesmo?
- Por enquanto não, mas vai melhorar. É porque estou com uma terrível dor de cabeça. Parece que fui castigado em meus sonhos. Parece que sai da cama sem me levantar verdadeiramente. É como se uma parte de mim continuasse dormindo e a outra viesse trabalhar.
- Sei como é. Já tive dias assim.
- Que dor...
- Calma, amigo. Calma. É apenas um sintoma que a maioria das pessoas não sente e quando sente não percebem qual é a causa, mas logo você vai descobrir o motivo de seu sofrimento.
- Tomara. E assim que descobrir cuidarei dessa “enfermidade”.
- Acredito que não seja possível a administração de um medicamento para o que sente. O agressor da sua integridade é externo e invisível, até para a mais poderosa lente. Diga-me. O que sentiu hoje quando acordou pela manhã?
- Senti um grande peso e havia uma imagem em meu pensamento. Era a imagem de várias pessoas batendo em mim, em minha cabeça, com grandes bastões feitos de palavras e letras que se desfaziam e vinham direto em minha direção.
- Continue.
- Logo depois estava mergulhado em um mar de palavras, de letras, de vozes. Afogava-me cada vez mais, deixando bem nas profundezas deste mar o verdadeiro Eu.
- Amigo. Isso é apenas um reflexo e uma pista para suas respostas. O que quero dizer é que nem eu, nem você, nem ninguém é quem realmente deveria ser.
- Amigo. Pode-se dizer que eu sou você. Que você sou eu. Que fazemos parte dos outros e os outros de nós. Somos apenas a reprodução das várias vozes. Vozes...

2 comentários:

  1. Gostei.
    Agorinha mesmo eu digo porque.
    Antes quero lhes dizer o seguinte: Você entrou no meu blog, na postagem: "Só para dar alguns exemplos". Mui grato, mas não fiquei satisfeito com O SEU simples e singelo comentário. Nem chegou a ser um comentário, pois com ele eu não aprendi nada."interessante! Só!!???"
    Proponho-lhes um desafio: Entre lá, novamente, e dê a sua nova versão. Dentro do mesmo tema, desenvolva o que você teria escrito. Esqueça o que escrivi e faça a sua própria criação textual obedecendo, simplesmente, o mesmo título e o mesmo tema, por favor. E depois eu mostrarei o que fiz.
    Agora, vai o meu comentária à sua idéia: O seu texto "Vozes" é maravilhoso, muito bem escrito. Com uma riqueza de elaboração literal explendorosa. Parabens, continue assim. E digo mais: É uma crônica, pelo que compreendi. E, com ela, você já pode se inscrever em qualquer certame de "ESCOLHA A MELHOR CRÔNICA", que, por ventura, esteja aberto pelo Brasil afora.
    Mais uma vez, parabens.

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  2. Sensacional! Diálogo perfeito, pode-se dizer que se trata de metalinguagem, pois se trata das várias vozes dentro de um texto... e da linguagem falando da linguagem. Muito bom. Parabéns!

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